terça-feira, 29 de dezembro de 2009

De volta

Me chamo Jaqueline.Estou cansada.
Eu só queria ficar ali no meu canto, meu pranto, desconsolo. Repetindo aquela dor.
Me misturando, me culpando, penumbra e solidão.
Contudo a ação foi mais. Os estímulos são mais.
Caminhei, piseis em pedras, detei com o sol, acordei no luar.
De olhos marejados, peito oprimido, renunciei um dia ao meu caminhar.
Parei um pouco olhei o horizonte, decidi agora recomeçar.
Ainda vacilante, ausente, mas o coração palpitante, voltarei à realidade, às vezes com medo, não tenho mais algúém a me apoiar.
Mas preciso desse suporte?
Porque não me proponho a me suportar?
Sou onerosa para mim, mas nessa meta que me propus, outra alternativa não há!
Essa parada, me fez refletir, acalmar.
Depois de um longo suspiro, inspiro, abro os olhos,a porta do quarto, faço minha colheita e novas propostas sementeiras.
Está chegando a hora de voltar...para mim.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Vejo e não me vejo

Me vejo como um cego vê o mar. Me sinto arrebentar.
Uma profusão de anseios, dentre eles o de me ver em tudo o que vejo.
É tempo de abrir minhas janelas e deixar refletir as luzes da vida.
É hora de desligar o filme do passado e abrir as cortinas do meu palco para os aplausos do futuro. É momento de dançar...toque música.. toque minhas entranhas, minha mente e pensamento..para que eu dance a minha música e envolva a mim mesma com essa canção.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Viagem

Voltando. Desfazendo as malas, esqueci uma malha, deixei sentimentos.
Sinto um burado.Arrumando os armários,me deparo com as minhas cores.
Me sinto cigana, querendo repartir minhas vestes, minha vida, minha travessia sem fim.
E cada vez mais e mais infinita, me sinto viagem, só partida, algumas paradas, sem chegada, sem roteiro, simplesmente viagem.
Colecionando momentos, fotografias, paisagens, moedas perdidas, meus passos dados, paixões transitórias, amor perene.
Não quero me privar de arrumar as malas, pra visitar minhas pousadas e percorrer as minhas estradas.
Viver encontros e rir e chorar nas despedidas.
E ser sempre viagem.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Sou meu E

Não sou alternativa, sou aditiva.
Não alegre ou triste.
Sou de alegrias e tristezas.
Nã sou de convívio ou de solidão.
Sou sozinha e multidão.
Não gosto do ou que me exclui possibilidades.
Prefiro o e que mostra minhas vertentes, sabores e dissabores; crises e amores. ilusões e realidades.
Sou monstro, sou fada, sou menina e mulher.
Sou fogo e água, sol e tempestadade.
Sou choro e riso, calmaria, euforia,grito, mudez e tantos sons e sentidos e chuvas e beijos.
Não gosto do ou, que define sem definir... Me fecha as demais portas.
Quero o e, quero o mais.
Quero o transitivo direto, sujeito, predicado e adjunto adnominais.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Eu Mar

Com dor no peito, saí do conforto. Fugi, procurando um arrimo, um novo porto.
Indescritívelmente distante do mar que sou.
Naufraguei. Me perdi de mim, me parti em mil, me senti ninguém.
Como o oceano que banhasse a primeira ilha, como um mineral ou um vegetal desconhecidos, como o leito do mar em fúria. Assim estou.
Mais um personagem; acolhendo minha solidão, meu grito silencioso, meu pranto encalhado na costa.
Me afastei de mim.
Me encontrei comigo,em meio a corais multicoloridos, às rochas e águas cristalinas, fui ao meu ventre marítimo.
Bebi meu vinho, me apresentei à minha inocência, permeei minhas cidades, continentes, revivi meus infinitos e minhas proximidades.
Há coisas assim incontáveis em mim? Sim há! E são tantas e tamanhas, tormentas, tempestades, verdades. A minha tristeza.
Ainda que sejam cinzentas as minhas águas, novos navios aportarão e noutros portos desconhecidos embarcarei, retornarei e fugirei.
Mas revelarei minha praia, vitoriosa sobre meu fragmento.
Volto ao cais, não mais a mesma.
Revi minhas margens, provei meu sal; fui além.
Se foi bom ou ruim?
Não sei.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Ação e não contemplação

Vivo dizendo que a vida é dinâmica, pulsante e vibrante.
Paradoxalmente a minha se transformou num lago inerte. Motivo?
A minha mania de ficar contemplando e observando a minha realidade e não fazer nada pra mudar o que me incomoda.Sei lá talvez a verdade íntima não queria ser vista a ponto de mudar a realidade externa.
Como já cansei desse lero lero (parafraseando a rainha do rock nacional)
To colocando as malas no carro. Vou pra praia, olhar mar, mergulhar de corpo e espírito e ver se volto com novas propostas e novas ações.
Até o natal!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Até quando?

Ela não sabia dizer.
Apesar de toda sua facilidade em expressar opiniões, da firmesa com que pontuava questões profissionais e familiares, Ana tinha uma dificuldade tremenda de se posicionar sentimentalmente.
Namorava há 3 anos, havia sintonia sexual entre o casal. Marcos a fazia rir, estimulava sua criatividade, tinham gostos musicais congruentes, um respeitava o espaço do outro.
Tudo seria normal, não fosse a dimensão dos espaços a serem respeitados. Era conveniente tanto espaço assim??
Ana, não sabia dizer.
Em que pese os dois terem sinergia, continuavam cada qual em sua casa, Ana não sentia-se a vontade de ir à casa do namorado sem ser convidada.
Após uma relação sexual, só lhe restava ir embora..ela queria mais, queria ficar ali, companheira, sentir-se amada, mas não sabia dizer.
Seria necessário pedir?
Marcos apresentava oscilações de humor, nunca a maltratava, mas em alguns momentos simplesmente ficava silente. Ausente até.
Ana sentia necessidade de estar ao seu lado, mas não encontrava meios de aproximar-se. Era simplesmente falar, mas Ana não sabia dizer.
Havia muito espaço entre eles, sim é importante respeitar-se a individualidade, mas ela estava pronta a se fazer presente, amiga, mulher.
Talvez isso era o que Marcos desejava, mas nenhum dos dois sabia dizer.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Diário de uma adolescente

Quem sou eu?
Meu nome é Marina, tenho 17 anos, estou fazendo cursinho pré vestibular. Minha mãe quer que eu estude e seja “alguém na vida”! E eu? O que quero?
Pra falar a verdade não sei. Nem sei ao certo que o é ‘esse tal’ de ser alguém na vida.
Não sei porque ‘tô estudando, nem sei ao menos o que quero fazer. Estudo porque minha mãe mandou, porque ela diz que é preciso e porque encontro um monte de gente, pra me relacionar. Deve ser esse lance de viver em sociedade. Cansa demais pensar nisso tudo...então procuro ocupar meu tempo me divertindo. Pra me divertir não preciso pensar, só faço, curto o momento. E acho que isso não é ruim, afinal, todo mundo faz!
O meu grande problema é que não quero desagradar minha mãe, ela batalha tanto pra eu estudar!
Mas também me irrita essa mania que ela tem de determinar a minha vida. Tudo bem, eu sei que ainda não sei o que fazer com a minha vida, mas ela me sufoca, por isso eu minto: digo que vou estudar e vou pra festas...
Só que essas mentiras me incomodam, gostaria muito de falar a verdade pra ela, mas sei que ela não ia aceitar.
Porque ela quer que eu seja alguém na vida, e eu nem sei quem é esse alguém...
Não quero crescer, esse negócio de ser adulto, ter profissão, deixa as pessoas amargas, severas, é assim que vejo minha mãe.
Ao mesmo tempo quero ser adulta logo e ir embora daqui,ser dona do meu nariz e não ter mais que dar satisfações.
Não gosto de me explicar, não gosto do jeito autoritário dela, mas tenho muito medo dela me abandonar, ou dela morrer; porque também não sei viver sem ela, porque tudo o que eu sou hoje é um pedacinho da minha mãe.
É difícil ter 17 anos. E mais difícil ainda é ter que escolher uma profissão e descobrir o que é esse 'ser alguém na vida.'
Tenho a impressão que minhas amigas sabem quem são e o que querem, tento imita-las, mas é tão difícil!
Não sei quem é a Marina, vou vivendo, experimentando, fugindo das responsabilidades, pra ver se uma hora dessas a resposta cai no meu colo... o problema é que estou farta de esperar, e as respostas não vem....

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Delícia de sobrinha

Minha conversa com Ana Julia no msn:

ela - Tia o que você está fazendo?
eu - lendo um pouco aqui no computador.
ela - Lendo o quê?
eu - Um livro da Clarice Lispector.
ela- Clarice Lispector? Não conheço...a minha preferida é Ruth Rocha.


Fala sério.. 9 anos já tem uma escritora preferida...uma lindeza de menina!!!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Afetada


Cansada por mais um dia de trabalho, chegou em casa tirou os sapatos, soltou os cabelos e olhou-se no espelho.
Ficou ali contemplando sua imagem por alguns minutos, acariciando seus cabelos, tocando os contornos do rosto, se ocupando de sua face.
Ligou o chuveiro e delicadamente molhou seus pés, entrando devagarinho embaixo da ducha, deixando-se envolver, sentiu a água escorrer pelo seu corpo, ensabondo-se, fazendo espuma, brincando com o corpo qual criança.
Identificou-se, cuidou-se, percebeu-se mulher.
Acariciou seu corpo, com o carinho que sempre desejou, não solicitou esse zelo, não exigiu, doou-se.
Ocupou-se da vida que é.
Não pensou no inadequando, no incoerente, concluiu que imprimir um odor ou um perfume no mundo íntimo é uma questão de opção.
Percebeu as emoções do dia enquanto tomava banho, concluiu que nada é mais importante que o cuidado consigo, inalou o perfume que morava em seu íntimo, deu-se conta que viver é mais...
Deixou que a essência de seu perfume fosse exalada. Gostou da própria companhia.
Amou a si mesma, para que tivesse referência de amor ao próximo.
Desligou o chuveiro, conectou-se, encontrou-se, olhou-se sob outro ponto de vista.
Passou um brilho nos lábios, vestiu-se com roupas leves, ficou grata pelo corpo, pele, cheiros.
Fez a diferença em si.
Saiu do casulo, virou borboleta, percebeu que a essência afeta.
Então, repleta de afeto, saiu para a rua exalando o perfume que é, o perfume do amor a contaminar multidões.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Moça bonita

Uma flor nos cabelos soltos que caiam sobre os ombros nus.
Um vestido rodado e estampado.
Um andar descalço pelos paralelepipedos da cidade.
Um sorriso cacau, um perfurme floral.
Um metro e meio de pernas grossas, cintura fina e olhos serenos.
Sensual? Sim. Mas não foi a forma descrita que lhe fez assim, em verdade ela é sensual porque de dentro pra fora há um misto de calor e morango no coração.
Há um brilho que lhe colore a boca e ilumina o olhar, fazendo-os prateados mais que céu de noite de verão.
Há um vibrar do sangue que a faz morena, laranja, fagueira e atrai até os vira-latas da cidade, que lhe vão seguindo, brincando como que lhe sentindo.
E há uma flor no cabelo que a faz natureza.
Um andar descalço de contato com o mineral e um cachorro amigo.
É a menina água, pedra, bicho, planta e mulher.
É o Ser pleno, contente, aberto para atrair o AMOR que a vida lhe der.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Forjando a armadura

"Nego-me a submeter-me ao medo
Que me tira a alegria de minha liberdade
Que não me deixa arriscar nada
Que me torna pequeno e mesquinho
Que me amarra
Que não me deixa ser direto e franco
Que me persegue, que ocupa negativamente minha imaginação
Que sempre pinta visões sombrias
No entanto não quero levantar barricadas por medo do medo
Eu quero viver, e não quero encerrar-me
Não quero ser amigável por medo de ser sincero
Quero pisar firme porque estou seguro e não para encobrir meu medo
E quando me calo, quero fazê-lo por amor
E não por temer as conseqüências de minhas palavras
Não quero acreditar em algo só pelo medo de não acreditar
Não quero filosofar por medo de que algo possa atingir-me de perto
Não quero dobrar-me, só porque tenho medo de não ser amável
Não quero impor algo aos outros pelo medo de que possam impor algo a mim
Por medo de errar, não quero tornar-me inativo
Não quero fugir de volta para o velho, o inaceitável, só pelo medo de não me sentir seguro no novo
Não quero fazer-me de importante por temer que, do contrário, seria ignorado
Por convicção e amor, quero fazer o que faço
E deixar de fazer o que deixo de fazer
Do medo, quero arrancar o domínio e dá-lo ao amor
E quero crer no reino que existe em mim"
Rudolf Steiner

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Lispector e eu...

"Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus." (CL)

Em casa a menina dependente.
No trabalho a profissional autônoma.
Na escola a aprendiz perdida.
No relacionamento a adolescente impulsiva.
Sozinha a criança carente.
Eu nunca apareço, somente os perfis que o mosaico que estou, expressa no meio.
O que sinto? Não sei! Somente os personagens sentem.
O que sou? Não sei! Os personagens são.
Isso é existir? Ou seria o inexistir do Ser, que vive de projeções?
O mosaico é a metade do copo, de frente para morno que mora em mim, não é um oco, nem um estar cheio.. é um inexistir que assusta, uma mescla de querer não estar e de algum modo sobreviver e a ânsia de um dia ser totalmente eu.