sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Bela Adormecia - a minha versão

Era uma vez um rei e uma rainha que desejavam muito ter uma filha.
Na verdade a rainha desejava muito um filho e o rei queria muito, muito agrada-la.
Pois bem, após algumas tentativas a rainha conseguiu engravidar. A notícia da gravidez se espalhou por todo o reino, os futuros papais passaram a planejar a chegada do bebê.
O rei fazia as contas dos gastos que viriam com a nutrição e subsistência do rebento, a rainha ocupava-se do enxoval e de sua boa saúde e alimentação pois tudo seria destinado ao bebê.
Enfim chegou o dia do nascimento: era uma menina!
A princípio papai e mamãe estavam em êxtase, resolveram ambos batizar a princesa e apresenta-la à sociedade.
Começaram a planejar a festa, todas as 13 fadas do reino seriam convidadas, afinal seriam elas as responsáveis por modelar a personalidade e o físico da princesinha.
A euforia do rei era tamanha que ele mal conseguia raciocinar, a dedicação da rainha à nova filha era tanta que ela não podia ocupar-se de festas e bailes de apresentação.
Optaram por delegar ao mestre de cerimônias do reino a incumbência de organizar a apresentação da princesa.
Convites preparados, cardápio elaborado, surgiu um grande impasse: haviam somente 12 pratos de ouro e 13 fadas. O que fazer??
O mestre de cerimônias questionou a rainha: esta não tinha tempo para essas banalidades.
Questionou o rei; racional que era disse somente: convide apenas doze oras! Uma qualidade a menos não vai atrapalhar ninguém!!
E assim foi feito.
No reino das fadas, todas aguardavam ansiosas o convite para batizar a princesa recém nascida.
Eu, aqui narradora, e fada que sou, também aguardava o meu...
Os convites foram chegando, as fadas foram se organizando para que cada uma oferecesse uma qualidade à princesa.
Como o meu convite não chegava fiquei ali, de ouvinte da conversa e pensando em dar a princesa uma pele alva como o dia.
Os dias foram passando, a festa se aproximando e nada do meu convite.
Uma angústia no meu peito.. tamanho o meu desejo de presentear a pequena princesa. Um misto de decepção, medo e rejeição me invadia pouco a pouco.
Porque não fui convidada?
Como até aquele momento eu não tinha a informação dos 12 pratos de ouro, tampouco da loucura que estavam as cabeças do rei e da rainha, só pensava: "Porque eu não fui convidada até agora?"
Chegado o dia do batizado, todas as fadas se arrumavam para o baile.
No castelo o rei e a rainha sequer sabiam o que ocorria no reino das fadas...
Meus sentimentos que até então habitavam só meu íntimo, foram-se exteriorizando..uma tristeza, uma amargura na boca do estômago,uma braveza e aspereza com minhas irmãs, uma raiva do rei e da rainha que não tinha fim..
O que eu poderia fazer?
Quando as fadas saíram em comboio para a festa fiquei ali matutando, chorando sozinha..há milênios não havia uma festa no reino, tampouco uma possibilidade de usar meus dons.
Eu estava ali, parada com minha varinha, inútil varinha, inútil existência...pra que ser fada se nem posso presentear a princesa? Pra que ser fada se ninguém lembra da minha existência? Aliás nem lembraram suas altezas que faltaria um predicado à sua filhinha.. eles pouco se importavam comigo e pouco se importavam com ela! Queriam mais é mostrar ao reino que eram bons reprodutores. Mostrar o prêmio do casal: a princesa.
A raiva foi aumentando, o amargo na boca também. Eu não perderia a oportunidade. Se não poderia fazer um encanto para o bem, sem encanto eu não ficaria.. alguém iria sorver a minha raiva, ou melhor o meu ódio.
Me vesti e fui para o castelo.
Chegando lá as fadas estavam uma a uma ofertando seus encantos à princesinha.
Enquanto uma das fadas - a mais atrapalhada - se arrumava, pois havia derrubado molho no vestido, atravessei o salão e despejei meu amargor perante a corte.
Se eu não podia fazer parte daquela realidade a princesinha também não faria e então lancei meu encanto:
- A princesa cresceria com todos os dons dados pelas minhas irmãs fadas, mas ao completar 16 anos, quando então adentraria à vida adulta ela furaria o dedo em um fuso de fiar e morreria.
Se eu não tinha oportunidade de viver a vida plenamente tampouco teria a princesa.
Me senti aliviada, justiçada mesmo após meu encanto, contudo a irmã-fada atrapalhada ainda não havia oferecido seu encanto.
E assim ela alterou o meu: quando da idade informada a princesa não morreria, mas ela e todo o reino dormiriam por cem anos, mas quando a princesa acordasse ela iria encontrar seu grande amor.
E assim ocorreu...
Após o baile vim a saber todo o ocorrido, a falta de pratos de ouro, a correria da organização da festa, a falta de foco do rei.
Me senti culpada.. o que poderia fazer? Agora todos dormiriam..
Os anos foram passando, todos dormiam, inclusive minhas irmãs fadas, era só eu vendo aquele sono sem fim, aquela ausência de vida, a falta do que fazer, comecei a me sentir inútil...
Às vezes eu passava pela Torre do Castelo e via a princesa dormindo, aquela inutilidade de vida.. me vi também nela.
Poderia fazer um novo feitiço? Porque não?
Decidi acordar a princesa, ou melhor todo o reino! Decidi me despertar!
Decidi que a princesa encontraria sim um companheiro, um não vários!
Família, amigos, algumas aventuras... ela iria se apaixonar, se frustrar, se investigar, se apaixonar, se frustrar, se auto-conhecer e depois de descobrir que ela não precisava de aprovações, nem todos os dons, muito menos aquele que eu havia me programado para dar a ela, nós nos conheceríamos, eu e a princesa.
Chegaríamos à conclusão que eu, ela e todas as minhas irmãs, éramos parte de um só indivíduo, nos daríamos as mãos.. mais que isso, seríamos todas nós - as 13 fadas e a princesa - um só conteúdo e despertaríamos para a vida adulta com responsabilidades, encontraríamos então a nossa verdade, abriríamos mão das varinhas de condão, pois agora teríamos a realidade e seguiríamos em frente, ou melhor pra dentro de nós mesmas e quando o companheiro dessa "mulher - fada - princesa e rainha de si" chegasse, estaríamos prontas para a auto educação e para recebermos outros príncipes e princesas que a realidade nos daria, mas agora sem bailes e fadas e batizados, mas com muito comprometimento.
E assim, após pensar e pensar e sentir a história em mim, fiz meu último encanto, arquivei minha varinha e cá estou nesse processo de conhecer a princesa, aprendendo a ama-la, me integrando a ela, ainda que sem a pele alva que planejei...se seremos felizes para sempre?
Um dia... um dia seremos reconhecidas por muito nos amarmos.


P.S. O rei e a rainha: bem quando a princesa acordou o rei se encantou por ela e ela pelo rei. Durante muito tempo ele foi o modelo de homem para ela, e por isso tantas paixões que não corespondiam ao perfil idealizado. Durante muito tempo houve uma competição entre ela e a rainha e quase a história se repetiu com encantos e sonos e maldições, mas a princesa foi embora do castelo, iniciou o processo de independência e está agora nessa fase de se apartar dos pais, de se integrar às suas essências fadas e nesse processo de auto-conhecimento e de buscas de um companheiro sem os arquétipos paternos, com muita disposição ela aguarda a possibilidade de receber a sua própria coroa e construir uma nova história, agora não encantada.. mas com muita verdade, que venham os estímulos.. é tempo de sermos!

4 comentários:

  1. fantástico.
    parabéns pela criatividade!


    bjs meus

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  2. Sem varinha de condão.
    ai ai ai

    ha muito tempo deixei de acreditar em conto de fadas,se bem ,confesso,adoraria,as vezes ter uma varinha rs

    SAUDADONA sua(ando enlouquecida correndo)

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  3. Dê!

    Saudades suas também!

    Eu ando meio ausente daqui, mas muito presente em mim...descartar a varinha de ocndão da um trabalhão, ms nada melhor do que viver da verdade, pois sou eu quem me liberto!

    Beijos querideza!!

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Depois de ler meus devaneios, 'bora filosofar comigo!